quarta-feira, 10 de maio de 2017

Uma Mulher do Norte em França // PORTUGUESES ABROAD


Ainda se lembram do cantinho que criei aqui no blog dedicado a todos aqueles que abandonam Portugal seja para trabalhar, seja para estudar? Pois bem, hoje regressamos em força com mais uma participação muito especial, por parte da Sofia Cleto autora do blog Crónicas de Salto Alto
A Sofia emigrou para Troyes, França em busca de uma melhor oportunidade de trabalho há 3 anos atrás,  e atualmente prepara-se para uma nova mudança, desta vez para terras inglesas. Vamos conhecer a sua aventura?

WeeklyVanessa - Estás a viver em Troyes há quanto tempo? O que estás a fazer neste momento em termos profissionais?
Sofia - Estou a viver em Troyes desde Abril de 2014, ou seja, desde há 3 anos. E vou mudar-me agora para Farnborough, em Inglaterra! Mais uma aventura que me espera. Neste momento estou a trabalhar naquilo em que trabalho desde que acabei o curso: sou médica dentista! Já lá vão 6 anos e acho que já não conseguia ser outra coisa que não isto.

WV - Qual foi a tua principal motivação para saíres de Portugal?
S - Eu tive a “sorte” de sempre ter trabalho em Portugal e a tempo inteiro. As aspas estão ali porque, se calhar, se não tivesse trabalho, como tantos outros, tinha emigrado mais cedo. Em Portugal, o excesso de médicos dentistas é brutal (entre outros problemas da área, mas não vamos entrar em debates políticos) e, como tal, o trabalho é muito (e cada vez mais) precário. Para se ter um salário decente, têm que se trabalhar horas infindáveis e arranjar trabalho nem sequer é fácil para a maioria. Depois há a questão financeira, porque mesmo que ganhes razoavelmente bem, os encargos para quem está a recibos verdes são mais que muitos. Além disso, há toda a questão da instabilidade, a qualquer momento podes ir para o olho da rua. Mas, essencialmente, a mim o que mais me motivou para sair foi a falta de respeito de que me sentia alvo, enquanto trabalhadora. Eu não tinha direito a ter vida, eu nunca tive férias (nem sequer um dia, em mais de dois anos), ia trabalhar doente, enfim, estava exausta e completamente esgotada física e psicologicamente. Sentia que só tinha deveres e não tinha direitos nenhuns.

WV - Penso que pouca gente já ouviu falar em Troyes, porquê a escolha desse destino para emigrar?
S - Bem, vou começar por dizer que Troyes é uma cidade muito bonita e que, quem tiver oportunidade, devia dar cá um salto! Há cá imensos portugueses, por isso, estou longe de ser a primeira a vir para cá hehe. Quanto à minha escolha, a razão é simples. A minha melhor amiga, que tirou o curso comigo, estava a trabalhar aqui e foi ela que me arranjou lugar na clínica onde estou agora. Emigrar com companhia fica muito mais fácil!

WV - Como Portuguesa e mulher do Norte, do que sentes mais saudades? (Comida, sítios, ...)
S - Ui, tanta coisa! Tenho imensas saudades da minha família e dos meus amigos, obviamente. Quanto ao resto, posso dizer que tenho imensas saudades do mar. Imensas, mesmo. Estava tão habituada a ter o mar por perto, que nunca me tinha imaginado sem ele (nem a falta que me ia fazer!). Também tenho saudades de ir tomar o pequeno-almoço ao café. Pode parecer uma estupidez, mas a meia de leite e a torrada na confeitaria salvam qualquer manhã, por mais cinzenta que esteja! E aqui não tenho isso. Aliás, quase não há cafés onde uma pessoa possa ir e sentar-se a tomar o que quer que seja. As pessoas aqui vão à padaria/confeitaria comprar as coisas para comerem em casa. Por último, vou dizer que tenho saudades do sol. Em Portugal (e, sobretudo, no Porto e em Matosinhos, de onde eu venho!) também temos frio e chuva, mas o sol quando brilha em Portugal, brilha de maneira diferente!

WV - Quais são os momentos em que ficas mais home sick? E quais são os momentos em que te beliscas por estares a viver em França?
S - O momento em que mais me custou estar em França foi no meu primeiro ano aqui. Os dentistas aqui são obrigados a estar de urgência nos domingos e feriados e, no meu primeiro ano aqui, calhou-me o 25 de Dezembro. Fiquei para morrer quando recebi a carta, mas não quis dar parte fraca no trabalho. Aguentei até chegar a casa e aí chorei baba e ranho. Primeiro ano em França e ia passar aqui o Natal! Nunca mais hei-de esquecer esse momento. Fora esse momento em particular, as alturas mais difíceis são os aniversários, os casamentos, enfim, as datas especiais. Porque querias estar ali com os teus e estás a mais de 1000km de distância e isso é uma dor que só quem passa por ela é que pode perceber.
Os momentos em que me sinto sortuda por estar aqui são aqueles em que ouço os meus amigos e colegas que ficaram em Portugal a queixarem-se do que ganham e das horas que trabalham e me sinto feliz por ter deixado essa vida para trás.

WV - Imaginando que 50% dos visitantes do blog se querem mudar para França ou até mesmo para Troyes, quais são as principais sugestões que lhes dás?
S - Estejam preparados para um grande choque no que diz respeito a simpatia. Os franceses não vos vão impedir de fazerem o que quer que seja, mas não vão ser vossos amigos. Procurem outros portugueses ou outros estrangeiros na zona para onde vão, porque senão estão por vossa conta (aqui há um português em cada esquina, por isso, não é difícil). Estejam, também, preparados para a falta de higiene porque não, não é um mito: é um facto.


WV - Que tipo de burocracias tiveste que tratar para poderes trabalhar ou alugar casa?
S - No caso dos médicos dentistas, a maior complicação é a inscrição na Ordem. É preciso um diploma em francês (nível B2, idealmente), o certificado em como se acabou o curso e mais uns certificados da Ordem portuguesa, assim como registo criminal. E tudo isto tem de ser traduzido para francês por um tradutor reconhecido. Depois são as coisas básicas, abrir conta no banco (precisei duma prova de morada e do contrato de trabalho), inscrição na segurança social (só é preciso a certidão de nascimento e cópia do cartão de cidadão, se não me engano), mas essa parte achei bastante simples. Quanto à casa, quando vim para cá, a empresa cedeu-me um apartamento durante os primeiros meses (de graça, o que foi óptimo!). Quando aluguei o meu apartamento, precisei do contrato de trabalho e das 3 últimas folhas de salário.

WV - Decidiste agora recentemente trocar França por Inglaterra... existe alguma razão para essa escolha que possa ser partilhada?
S - Existe, pois! E chama-se Mário. O meu namorado ficou a acabar o doutoramento quando eu vim para Troyes. Entretanto, acabou-o e ainda andámos a estudar a possibilidade de eu voltar para Portugal, mas eu não queria dar esse passo, porque sabia que a minha vida profissional ia regredir imenso. Assim sendo, ele acabou por decidir sair. Escolhemos Inglaterra porque ele só fala português e inglês e era a solução mais simples.

WV - Um dia em Troyes e eu não posso deixar de visitar...
S - ...tudo! A cidade é pequena, vê-se bem num dia. Aconselho as ruas à volta da Câmara Municipal, para ver as casas de madeira coloridas e típicas, a Ruelle des Chats e o coração de Troyes (à noite, que é quando é mais bonito).

WV - O local que mais te faz lembrar Portugal ou o Porto em Troyes é...
S - ... nenhum! Não há semelhança nenhuma.

WV - Saudade é mesmo uma palavra portuguesa? Para ti ganhou outro significado?
S - Saudade é o sentimento mais português que existe. Sim, ganhou outro significado, porque agora vivo com ela todos os dias. Mas sou feliz. E, quem sabe, se um dia não poderei mesmo voltar para Portugal? Gosto de acreditar que sim.

Muito obrigada à Sofia por ter aceite participar aqui no meu cantinho, desejo-lhe toda a sorte do mundo nesta nova etapa que se segue! Não deixem de passar pelo blog dela, Crónicas de Salto Alto, e ficar a conhecer um bocadinho melhor a sua aventura.

E tu? Já passaste pela mesma aventura ou conheces alguém que tenha passado pelo mesmo mas num local diferente? Atreve-te a partilhar por aqui ou desafia um amigo a fazê-lo deixando um comentário ou enviando um email para weeklyvanessaabreu@gmail.com e ajuda alguém que se queira aventurar no mesmo.

Nota: Todas as fotografias aqui colocadas são da autoria do Sofia Cleto e estão reservadas a direitos de autor.

4 comentários:

  1. Adorei a entrevista :)
    Fiquei encantada, mesmo de coração.
    Segui o blog, não conhecia, e parabéns pela rubrica.
    Beijinhos
    https://a-carlota.blogspot.pt/

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    1. obrigada carla! :) quero com este cantinho partilhar experiências, promovendo também a interação entre bloggers e dar um pequeno apoio a quem está a pensar sair do país e mostrar outras histórias a quem já saiu. não só através de experiências boas, mas também as más. Beijinhos :)

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  2. Adorei a entrevista! :P
    Primeiro porque já gosto muito da Sofia; e no fundo já esperava algumas das respostas; mas porque sabe sempre bem saber mais e ler alguém de quem gostamos!
    Vanessa esta rúbrica é simplesmente fantástica! :)
    Leva-nos a conhecer outros países, pelos olhos de portugueses que lá vivem! Parabéns!
    Beijinho,
    Tiff
    Last Post: TV | Revoltada com a novella “Amor Maior”
    Ukuhamba

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    1. muito obrigada tiffany, a próxima também será especial :) o meu objetivo é mesmo esse... que se partilhem experiências ao mesmo tempo que se partilham outros países, ajudando quem pode estar a pensar sair do país ou até mesmo para quem já saiu ver o lado de outras pessoas. beijinhos :)

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